A ascensão da direita no Brasil é resultado, em parte, do enfraquecimento das organizações que historicamente mobilizavam eleitores de esquerda, segundo a socióloga política Elizabeth McKenna, em artigo de opinião publicado pelo jornal norte-americano The New York Times na 2ª feira (5.out.2026). A sindicalização, segundo McKenna, caiu quase pela metade de 2012 a 2025.
Para a autora, igrejas evangélicas e redes conservadoras ocuparam parte desse espaço e ajudaram a ampliar a base política do bolsonarismo.
McKenna é professora da Harvard Kennedy School e autora do livro “The Paradox of Participation: Organizing Authoritarianism in Democratic Brazil” (O Paradoxo da Participação: Organizando o Autoritarismo no Brasil Democrático em tradução livre). No artigo, ela afirma que o avanço da direita não pode ser explicado apenas por fatores como insatisfação econômica, mudanças culturais e polarização. Para ela, é necessário observar também como os brasileiros participam da vida política e quais organizações conseguem mobilizá-los.
McKenna atribui parte desse processo ao PT, que teria deixado de investir em organização local para concentrar esforços em eleições e na administração do governo. Na avaliação dela, o partido passou a depender cada vez mais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não teria um sucessor com a mesma capacidade de mobilização.
Ao mesmo tempo, igrejas evangélicas passaram a ocupar parte desse espaço. A autora afirma que a proporção de evangélicos na população brasileira passou de 9% em 1991 para 27% em 2022, o que representa mais de 30 milhões de pessoas a mais no período.
Segundo McKenna, em bairros pobres, especialmente nas periferias, igrejas pentecostais conseguem estabelecer uma relação mais próxima com os moradores do que partidos ou movimentos sociais. Ela afirma que 3 em cada 4 evangélicos frequentam cultos ao menos 1 vez por semana.
Para a socióloga, essas redes se tornaram uma base duradoura da direita porque pastores ajudam os fiéis a relacionar suas crenças religiosas com escolhas políticas.
“Uma mulher pentecostal pobre da periferia de São Paulo não é eleitora de Bolsonaro por natureza; na verdade, os evangélicos passaram mais de uma década aliados ao PT. Mas, se um pastor está presente toda semana para ajudá-la a relacionar sua fé à política, ela se tornará eleitora de Bolsonaro. Em troca, os fiéis —que recebem pouco do Estado e ainda menos dos partidos que afirmam falar em seu nome— ganham ordem, sobriedade e uma comunidade que sempre se lembra do seu aniversário, como me disse uma moradora local”, afirmou o artigo.
Agora, pela 1ª vez desde 2014, mais brasileiros se identificam com a direita do que com qualquer outra ideologia —uma mudança que coincide com o “extraordinário sucesso da direita neste último fim de semana“.
A autora também cita o crescimento de organizações conservadoras e redes de base na internet. Segundo ela, esses grupos não têm necessariamente uma liderança formal ou um programa ideológico único, mas orbitam figuras como Donald Trump (Partido Republicano) e os integrantes da família Bolsonaro.
Supremo
O artigo também aborda o papel do Supremo Tribunal Federal na democracia brasileira. McKenna afirma que a Corte não pode ser considerada, sozinha, uma garantia contra o autoritarismo.
A autora cita a crise provocada por um grande escândalo de corrupção e afirma que os brasileiros passaram a desconfiar mais do Supremo do que de outras instituições.
Ela também diz que a atuação dos ministros contra Jair Bolsonaro não deveria ser utilizada como indicador isolado da força do Estado de Direito. Para McKenna, instituições judiciais são importantes para conter o autoritarismo, mas não conseguem cumprir essa função sozinhas.
Eleições
Ao analisar a eleição presidencial de 2026, a socióloga afirma que uma eventual vitória de Lula no 2º turno dependeria, entre outros fatores, da capacidade de mobilizar parte dos 33 milhões de eleitores que não votaram no 1º turno.
Segundo ela, fazer isso em 3 semanas exigiria uma estrutura de organização local que o PT deixou de construir ao longo das últimas décadas.
No fim do artigo, McKenna amplia a análise para além da atual disputa presidencial. Ela afirma que o crescimento de organizações ligadas a pastores, mobilização de indignação nas redes sociais e figuras políticas com discursos excludentes ocorreu ao mesmo tempo em que sindicatos e partidos de massa perderam participação de seus integrantes.
Para a autora, enquanto mais brasileiros não participarem de organizações que também ajudem a governar, o ambiente cívico do país continuará vulnerável à atuação de políticos de diferentes correntes ideológicas que adotem práticas autoritárias.







