O CDS (Credit Default Swap) de 5 anos do Brasil recuou para 110 pontos na 6ª feira (9.out.2026), o menor nível desde fevereiro de 2020, quando havia chegado a 106,95 pontos.
O movimento indica melhora na percepção internacional de risco sobre o país. O efeito se dá depois do resultado do 1º turno das eleições presidenciais. A expectativa do mercado é que um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL) venha a adotar medidas de contenção de gastos e de estabilização da dívida pública.
O resultado eleitoral também foi acompanhado pela alta da Bolsa brasileira e pela queda do dólar e dos juros futuros.
Risco país próximo do México
O indicador se aproximou do México, que tem CDS de 94 pontos. O país tem grau de investimento, classificação que indica capacidade adequada para honrar suas dívidas.
As agências de classificação de risco avaliam o México da seguinte forma:
- S&P — BBB, com perspectiva negativa: a nota indica grau de investimento. A perspectiva negativa sinaliza que a agência pode rebaixar a classificação caso identifique uma piora nas condições econômicas ou fiscais;
- Moody’s — Baa3, com perspectiva estável: é a classificação mais baixa dentro do grau de investimento na escala da agência. Indica capacidade considerada adequada para pagar as dívidas, mas com maior vulnerabilidade a uma deterioração econômica ou financeira. A perspectiva estável indica que a agência não sinaliza uma mudança de nota como cenário-base;
- Fitch — BBB, com perspectiva estável: é o último nível do grau de investimento na escala da agência, antes da categoria especulativa. Indica capacidade considerada adequada para cumprir as obrigações financeiras, mas com maior exposição a condições econômicas adversas. A perspectiva estável indica que a agência não sinaliza uma direção definida para a próxima mudança de nota.
O Brasil tem classificação de risco inferior à do México nas 3 agências internacionais. O país ainda está na categoria especulativa, que indica maior exposição ao risco de crédito.
As notas atribuídas pelas agências são:
- S&P — Brasil: BB, com perspectiva estável: 2 níveis abaixo do grau de investimento;
- Moody’s — Brasil: Ba1, com perspectiva estável: a nota brasileira está 1 nível abaixo do grau de investimento;
- Fitch — Brasil: BB, com perspectiva estável: a nota brasileira está 2 níveis abaixo do grau de investimento.
A melhora, porém, reflete expectativas, e não uma mudança já consolidada. A manutenção desse movimento dependerá da capacidade de um eventual governo Flávio conseguir transformar propostas de ajuste fiscal em medidas concretas.
O QUE É O CDS?
O CDS é um contrato que funciona como uma espécie de seguro contra o calote de um país ou empresa. O comprador paga um prêmio para se proteger contra o não pagamento de uma dívida. Em caso de inadimplência, o contrato estima uma compensação conforme suas condições.
A pontuação exprime o custo dessa proteção. Um CDS mais alto indica que o mercado exige um prêmio maior para assumir o risco de crédito do emissor. A queda do indicador brasileiro, portanto, mostra que os investidores passaram a cobrar menos pela proteção contra um eventual calote da dívida soberana.
O CDS, no entanto, não representa diretamente uma probabilidade oficial de inadimplência. A conversão do prêmio em uma probabilidade implícita depende de hipóteses sobre a recuperação dos valores em caso de calote e da metodologia utilizada.
OTIMISMO DEPOIS DO 1º TURNO
A Bolsa disparou 8,82% na semana e fechou em 209 mil pontos. O dólar caiu 4,40%, para R$ 4,98. As variações ocorreram depois de Flávio ter terminado o 1º turno das eleições presidenciais com 47,03% dos votos válidos, à frente de Lula, que teve 45,16%.
O mercado avalia que Flávio terá um governo mais disciplinado do ponto de vista fiscal do que o atual presidente, o que tornaria o ambiente de negócios mais favorável para cortes de juros e, consequentemente, para a renda variável.
Os contratos de DI (Depósito Interfinanceiro), que refletem as expectativas para os juros futuros e incorporam prêmios de risco, recuaram ao longo da semana. O DI para janeiro de 2032 caiu de 14,07%, em 2 de outubro, para 12,52%, em 8 de outubro –redução de 155 pontos-base.
Já o DI para janeiro de 2035 chegou à mínima de 12,53% e fechou a 12,60%, com queda acumulada de 153 pontos-base desde o fim da apuração do 1º turno. O DI para janeiro de 2028 ajustou-se para 12,54%.
A queda das taxas indica uma redução da remuneração exigida pelos investidores para negociar contratos atrelados aos juros futuros
EMISSÃO DE TÍTULOS
O Tesouro Nacional aproveitou para captar R$ 33,3 bilhões com a venda de títulos prefixados na 5ª feira (8.out), no maior leilão desse tipo desde 2020.
A intensidade do movimento dos juros também provocou comparações com o período do impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016, quando uma queda da curva de juros de magnitude semelhante levou cerca de 2 meses para se desenhar.
O órgão aproveitou o otimismo para emitir títulos com rendimentos menores em um momento de custo de financiamento mais baixo –e, assim, gastar menos com os juros da dívida ao longo do tempo.
A demanda por títulos prefixados de longo prazo também sinaliza maior disposição dos investidores para apostar em juros menores no futuro.
PROPOSTAS DE FLÁVIO
A equipe econômica ligada a Flávio estuda medidas como:
- substituir o arcabouço fiscal de 2023 por uma meta de dívida bruta em relação ao PIB (Produto Interno Bruto);
- cortar de R$ 190 bilhões a R$ 300 bilhões em gastos por meio de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição);
- revogar cerca de 1.000 atos administrativos por decreto, sem aprovação do Congresso.
As propostas, no entanto, ainda dependem de detalhamento, e parte das mudanças exigiria aprovação do Congresso. A equipe econômica do senador ainda não apresentou um plano econômico completo, com medidas, prazos e estimativas de impacto fiscal.
A partir de 2027, a execução das reformas e a capacidade de conter o crescimento da dívida devem ser determinantes para a manutenção da confiança dos investidores, independentemente do vencedor da disputa à Presidência. Para o mercado, um eventual governo Flávio terá de transformar as propostas de ajuste fiscal em medidas concretas para estabilizar a dívida pública.







