Juíza baiana passou fome na infância e teve que dividir sapato com irmã
Passar em um concurso para juiz é considerado um dos desafios mais difíceis de quem segue a carreira jurídica. Para a baiana Rosilene Santana, o caminho até tomar posse no Tribunal de Justiça do Acre (TJ-AC), em 2023, foi ainda mais árduo, já que ela precisou superar a fome, o trabalho infantil, a falta de acesso à educação e outra perdas pessoais até chegar à carreira na magistratura.
Nascida na comunidade de Pajeú, zona rural de Oliveira dos Brejinhos, no oeste da Bahia, Rosilene é filha de agricultores — a segunda de sete irmãos. A juíza veio ao mundo em um parto realizado por uma parteira, dentro de casa. Na infância, viveu em condições precárias, sem energia elétrica e sem água encanada, em uma família que dependia exclusivamente do trabalho na terra para sobreviver.
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Rosilene conta que começou a trabalhar aos 6 anos de idade, quando ela e uma das irmãs ajudavam o pai na lavoura.
“Começamos a trabalhar muito pequenas, puxando boi e cavalo para arar a terra, porque não tínhamos condições de usar trator. Meu pai vinha atrás empurrando o arado e a gente ia na frente conduzindo os animais”, relembrou em entrevista ao g1.
Rosilene Santana no dia em que tomou posse no Tribunal de Justiça do Acre (TJAC)
Arquivo pessoal
Além do plantio, elas também participavam da colheita, atividade que exigia longas jornadas de trabalho sob o sol quente típico do semiárido.
Apesar das dificuldades, Rosilene cultivava um sonho incomum para uma menina vinda da realidade dela. Desde pequena, gostava de intermediar as discussões entre os irmãos. Por causa disso, os pais passaram a chamá-la de “juíza da casa”.
”Eu sempre tive um senso de querer saber quem estava certo, quem estava errado nas coisas. E eu me lembro que, ainda muito pequena, os meus pais começaram a dizer que eu era a juíza da casa, que eu me comportava como se fosse uma juíza. E eu, com aquela idade, não tinha a menor ideia do que era ser juíza, mas eles repetiam tanto aquilo que me fizeram colocar a ideia na cabeça”.
Dessa forma, ela incorporou o apelido e começou a dizer que seria juíza quando crescesse, mesmo sem saber exatamente o que significava a profissão.
Um colchão para dividir e restos de ossos para reforçar a alimentação
A educação, no entanto, esteve longe de ser um caminho fácil. Em determinado momento da infância, Rosilene ficou um ano inteiro sem estudar porque não havia professor na comunidade onde morava. Aos 9 anos, precisou deixar a casa dos pais para continuar os estudos.
Assim, ela e a irmã foram enviadas para a zona urbana de Oliveira dos Brejinhos. A princípio, moraram na casa de uma tia, mas a convivência não deu certo por diversos fatores, como o preconceito que sofreram e insinuações sobre o fato de duas crianças viverem longe dos pais.
Com 10 e 11 anos, respectivamente, as duas passaram a morar sozinhas em uma antiga cozinha emprestada por um amigo da família. Dormiam juntas em um único colchão de solteiro colocado no chão. O espaço não possuía banheiro, e continha apenas um fogão à lenha onde as duas preparavam as refeições.
Rosilene e a irmã (da esquerda para a direita) na cozinha onde moraram por um período
Arquivo pessoal
A situação financeira era tão delicada que a fome passou a ser recorrente e, muitas vezes, a única refeição garantida do dia era a merenda escolar. Em alguns períodos, recorriam até a restos de ossos, de um açougue da cidade, para complementar a alimentação. Apesar das dificuldades, as duas não falavam para os pais o que estavam passando.
Em uma visita, quando a mãe tomou conhecimento da situação que as filhas enfrentavam, decidiu tirá-las do local e conseguiu a casa de um cunhado para abrigá-las. O imóvel, no entanto, também era precário — sem banheiro ou fossa séptica —, em situação ainda pior que a da cozinha anterior. Então, aos 12 e 13 anos, as duas irmãs passaram a trabalhar como babás para ajudar no próprio sustento.
“A minha irmã conseguiu um trabalho que ganhava R$ 25, eu consegui um que ganhava R$ 20, ali já foi melhorando um pouco mais a nossa a nossa situação financeira”.
Naquele momento, as duas mudaram de escola. A nova unidade de ensino exigia uniforme completo, com calçado fechado, mas o pai só tinha condições de comprar um único par de sapatos. Como estudavam em turnos diferentes, as duas irmãs precisavam revezar o mesmo calçado para frequentar as aulas.
A batalha para conseguir estudar
Com o tempo, as duas passaram a se integrar à rotina da cidade, fazer amizades na escola e buscar novas oportunidades. Depois, com a ajuda de conhecidos, Rosilene e a irmã deixaram a Bahia e se mudaram para Colatina, no Espírito Santo.
Na nova cidade, descobriu que tinha perdido o prazo da matrícula regular e precisou concluir o 3º ano do ensino médio por meio de um supletivo. Como ainda não trabalhava, passava o dia todo na escola e concluiu a etapa em apenas três meses.
Ao longo desse período, Rosilene precisava percorrer um percurso de 7km entre a casa e escola porque não tinha dinheiro para pagar as passagens de ônibus.
Perto de concluir o ensino médio, conseguiu um emprego de doméstica na residência de uma família, onde também passou a morar. Algum tempo depois, recebeu um ultimato do patroa: escolher entre o trabalho e os estudos. Sem hesitar, pediu demissão para terminar a formação escolar.
Depois disso, já tendo terminado a escola, Rosilene queria ingressar no curso de direito, e passou a se preparar. Naquele momento, também arrumou outro trabalho como empregada doméstica. Porém, dessa vez, contou com o apoio dos patrões que ajudavam como podiam.
Rosilene prestou alguns vestibulares, como o da Universidade Federal de Viçosa (UFV), mas constatou que, com a bagagem educacional que tinha, não conseguiria entrar numa universidade pública. Ao mesmo tempo, o salário de empregada doméstica não cobria as mensalidades de uma faculdade privada. Ela decidiu, então, procurar empregos com melhor remuneração para conseguir bancar o curso de direito.
”Naquele momento, eu pensei: bom, eu acho que eu preciso dar um passo atrás, eu preciso ter uma profissão para eu conseguir um trabalho que vai me dar a condição de pagar minha faculdade, porque já era o final de 2004, eu tinha terminado o ensino médio e não conseguia nada. Falei: ‘eu preciso ter uma profissão’”.
Ao ler o jornal diário, viu que o Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), atual Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), estava com inscrições abertas para o vestibular, com três cursos com vagas abertas. Ela ligou para a instituição, a fim de saber qual dos cursos tinha a melhor inserção no mercado de trabalho — e descobriu que, à época, era Edificações.
Para se dar bem no curso, utilizou metade do salário para pagar aulas particulares com um professor que aceitou reduzir o valor cobrado. Assim, ela foi aprovada no processo seletivo e ingressou no curso técnico, que tinha duração de dois anos.
Após se formar, foi contratada por uma mineradora, onde passou a receber R$ 750. Com o novo emprego, concluiu que era o momento de tentar a tão sonhada faculdade de direito.
“Eu fui fazer o vestibular, só que o valor da mensalidade era R$ 490. Eu falei: ‘Bom, eu ganho R$ 750 e pago aluguel, não vai dar’. Mas resolvi fazer para ver se passava e, depois, resolver [o que fazer]. Fiz e passei. Em seguida, fui lá e pedi uma bolsa”, contou.
Rosilene, então, fez mais uma prova e conseguiu um desconto de 50% na mensalidade, iniciando a graduação dos sonhos em 2008. Durante todo o curso, conciliou o trabalho em tempo integral na mineradora com as aulas à noite.
“Tendo plena consciência da minha deficiência do ensino fundamental e médio, eu sabia que estava muito atrás dos colegas, então chegava da faculdade, estudava, reforçava o conteúdo. Eu coloquei para mim uma meta de estudar até 1 hora da manhã”.
Segundo a magistrada, não foi possível viver a experiência universitária tradicional — assim como também não vivenciou a infância. Enquanto os colegas participavam de atividades acadêmicas e sociais, como festas e confraternizações, ela precisava concentrar os esforços na própria sobrevivência, sem poder investir dinheiro em diversão.
O empenho trouxe resultados: ainda no 9º semestre da faculdade, foi aprovada de primeira no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Em 2013, ingressou na Escola da Magistratura em Vitória e abriu um escritório com um amigo para ganhar experiência prática.
Rosilene e seus pais na formatura no curso de direito.
Arquivo pessoal
De concurseira a juíza
Durante cinco anos, dedicou-se aos concursos públicos, chegando a usar reservas financeiras para estudar em tempo integral. Prestou mais de 14 provas para juíza em diversos estados, mas não atingia a nota de corte. Para manter os estudos, contratava cursos preparatórios e trabalhava nos períodos livres atendendo a alguns casos remanescentes do antigo escritório.
A caminhada, porém, foi marcada por uma perda profunda. Em 2018, a mãe de Rosilene sofreu um aneurisma e morreu um dia antes de completar 60 anos. Focada na preparação para as provas, Rosilene não chegou a tempo de se despedir — episódio que considera a maior dor de sua trajetória.
“Foi muito difícil porque eu fiquei me culpando, não pelo que aconteceu com ela, mas por não ter estado lá. Era como se eu estivesse colocando o meu desejo à frente de qualquer coisa”, desabafou.
Em março de 2020, pouco antes do início dos confinamentos da pandemia de Covid-19, fez a primeira etapa do concurso para juiz do Tribunal de Justiça do Acre (TJ-AC).
“Fechou tudo e bateu aquele desespero: ‘vamos conseguir sobreviver?’. A gente via pessoas conhecidas morrendo 15 dias após pegar Covid. Como tudo era imprevisível, pensei: ‘preciso continuar estudando’”.
A dedicação culminou na aprovação na prova oral, a última fase do certame. “Fiz a prova no dia 3 e, no dia 16, já saiu o resultado. Em 24 de novembro, veio a nomeação e tomei posse em 8 de dezembro, Dia da Justiça. É muito simbólico tomar posse, depois de tudo o que vivi, no cargo que eu sonhava desde os 7 anos”, lembrou.
As lições deixadas pela trajetória
Rosilene Santana no dia em que tomou posse no Tribunal de Justiça do Acre (TJAC)
Arquivo pessoal
Rosilene, que hoje tem uma filha, também reflete sobre como a preparação para grandes concursos afeta as mulheres de forma diferente, exigindo escolhas difíceis entre a carreira e o planejamento familiar.
“Para a mulher, é muito mais difícil por vários fatores, a começar pela questão da fertilidade. Se você quer ser mãe, precisa escolher o que vai priorizar: a carreira ou o sonho de ter filhos, correndo o risco de não conseguir depois. A maioria das pessoas que estudam para concurso não tem R$ 30 mil ou R$ 35 mil para fazer congelamento de óvulos ou reprodução assistida. Você vai na sorte”, observa.
A juíza aponta ainda a disparidade em relação aos candidatos homens durante a jornada de estudos.
”Os colegas homens estudam com suas famílias formadas, com filhos pequenos. Por quê? Porque quem ficava com a criança para viajar, para fazer prova, não era ele. Não era ele que tinha que viajar com a criança, né? Não era ele que tinha que estudar com a criança no colo, amamentando, tendo que parar para amamentar, trocar… era a mãe”.
Apesar das dificuldades, Rosilene reforça o papel transformador da educação. Diante do fascínio jovem pelo sucesso rápido nas redes sociais, ela defende o estudo como o caminho mais seguro.
“Hoje a juventude está muito empolgada com redes sociais, vendo pessoas viralizarem e ficarem ricas com um ‘vídeozinho’. Gente, isso é exceção. Pode não parecer, mas isso é exceção. A educação, por mais difícil que seja o caminho, ainda é a maneira mais viável e palpável de modificar nossa realidade”.
Mesmo após alcançar o cargo dos sonhos, a magistrada segue estudando. Recém-especializada, ela cursa mestrado em Brasília.
Agora não se trata mais de buscar uma carreira sólida nem segurança financeira. De acordo com Rosilene, seu desejo é reforçar os próprios conhecimentos para sempre agir com cuidado e responsabilidade ao tomar decisões que impactam as vidas de tantas pessoas.
*Estagiária sob supervisão da editora Ailma Teixeira
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