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Tom Zé quer pôr Curitiba em música e chega aos 90 anos sem medo de desmontar certezas

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Tom Zé quer pôr Curitiba em música e chega aos 90 anos sem medo de desmontar certezas

Aos 90 anos, Tom Zé ainda prefere sacudir certezas a oferecer respostas prontas. Um dos artistas mais inquietos e inventivos da música brasileira, o baiano continua olhando para o mundo como matéria-prima para a criação — seja nos ruídos do cotidiano, nas contradições do país ou nas possibilidades que ainda estão por vir. Em entrevista ao Bem Paraná, fala sobre inteligência artificial, humor, redes sociais e o Brasil que ainda deseja cantar.

Ao imaginar uma música inspirada em Curitiba, convoca a criatividade de Jaime Lerner, que transformou a cidade, e do linguista Caetano Galindo, a quem chama diretamente para a composição. Entre provocações e reflexões, Tom Zé reafirma que a criação não combina com acomodação: é preciso olhar em torno, dialogar com o próprio tempo e encontrar novas maneiras de fazer.

 No dia 1º de novembro, às 20h, ele leva essa inquietude ao palco do Tork’n’Roll, em Curitiba, com novas obras e clássicos de uma carreira que nunca se contentou em seguir a cartilha da música brasileira. Tom Zé sobe ao palco com um show vigoroso e uma presença que marcou seu nome no olimpo da música global. A assinatura é a mesma desde o início: nunca deixar nada fácil, nunca deixar nada confortável. Para o artista, música é incômodo e caminho para (des)complicar a vida.

Bem Paraná – O senhor sempre foi um artista interessado em desmontar certezas. Hoje, o que mais lhe parece precisar ser desmontado no Brasil?

Tom Zé –  Construir e servir à humanidade é processo intrínseco a qualquer desmontagem. Observar ambas as faces do fenômeno e contribuir com ele  e comete à humanidade brasileira.

BP –  O senhor criou música a partir de ruídos, objetos, máquinas e sons improváveis. Se tivesse de transformar Curitiba em uma música, que sons entrariam nela?

Tom Zé – Eu invocaria a criatividade de curitibanos, como Jaime Lerner, que nos deixou há algum tempo e de seus sucessores em arte e sensibilidade para que trabalhassem comigo compondo essa música. Invoco a aqui também criatividade do grande linguista Caetano Galindo. Olá, Galindo! Venha cá!

BP – A inteligência artificial já consegue escrever letras, criar melodias e imitar vozes. O que ainda existe na criação humana que uma máquina não consegue reproduzir?

Tom Zé – Josianne, sei pouco a respeito desse recurso. Faça-me essa pregunta daqui a um ou dois anos. Por ora, a IA tem muito de espelho, mas caminhará, em termos de utilização.  Bicho humano não fica quieto!

BP –  O humor sempre foi uma ferramenta importante na sua obra. O senhor acha que o Brasil ficou mais difícil de fazer rir ou mais fácil de provocar com uma boa ironia?

Tom Zé – Há um livro de Bergson (filósofo Henri Bergson), sua pergunta me levou a essa obra que li há algumas décadas, em que o riso dá a mão à inteligência, distancia-se do imediato, dá uma panorâmica e manda ver. O que continua fazendo em nossos dias.

BP – Vivemos numa época de músicas feitas para durar poucos segundos nas redes sociais. O que o senhor acha que acontece com uma canção quando ela deixa de ser ouvida inteira?

Tom Zé – Ser fruída e desaparece, ser substituída, ou ser insubstituível, estamos falando de um jeito de ter/fazer  que pode ser aplicado à nossa existência de gente.  Música é uma forma de existência, breve, longa, passada, presente, futura.

BP – Se pudesse conversar por uma hora com o jovem Tom Zé que estava começando a carreira, que conselho — ou provocação — daria a ele?

Tom Zé – Olhe em torno, dialogue com seu entorno. Ou ache sua maneira de trabalhar.

BP – O senhor vem de Irará, na Bahia, mas construiu uma obra profundamente ligada à ideia de Brasil. Depois de tantos anos observando o país, qual Brasil ainda não foi cantado pelo senhor?

Tom Zé – O que espero ter tempo de cantar. Olhando em torno, Josianne. Aqui em São Paulo há música composta pela periferia que gosto de ouvir, parabéns, periferia.

BP – O senhor sempre esteve na contramão do que se esperava da música popular. Em algum momento da carreira teve medo de que o público não entendesse suas experiências — ou esse risco sempre foi parte da diversão?

Tom Zé – Não tenho queixa alguma de nada, o público, representado por poucos ou muitos ouvintes, sempre esteve e está comigo. Agradeço a companhia. O brasileiro sabe rir com inteligência, divertir-se, sabe ouvir.

Serviço

TOM ZÉ 90 ANOS | CURITIBA

Data: domingo 1º de novembro de 2026

Horário: 20h (abertura da casa às 19h)

Local: Tork n’ Roll – Avenida Marechal Floriano Peixoto, 1695 – Rebouças, Curitiba

Realização: www.transpira.com.br

Ingressos

A biografia de Tom Zé: loteria, tropicalista, “empurrão” de David Byrne

Antônio José Santana Martins nasceu em 11 de outubro de 1936, na cidade de Irará, Bahia. Sua família era abastada, com os ganhos provenientes de um bilhete premiado de loteria. Tom Zé passou sua infância no sertão baiano, em sua cidade natal. Na adolescência, passou a se interessar por música e aprender a tocar violão.

Sua primeira composição foi uma música chamada “Os Doidos de Irará”, que relatava sobre personagens caricatos da cidade. A música foi tocada por uma banda local durante uma festa na cidade, sem que Tom Zé soubesse.

Nessa época, também se apresentou em programas de calouros de televisão. Se tornou diretor musical do Centro Popular de Cultura, gerido pelo Partido Comunista Brasileiro.

Em 1964, se matriculou na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia e teve aulas com professores como Hans-Joachim Koellreutter, Ernst Widmer e Walter Smetak. Se tornou bolsista, depois que o Centro Popular de Cultura foi perseguido pela ditadura militar. Na faculdade, Tom Zé passou a tocar violoncelo.

Em 1965, se apresentou no espetáculo Arena canta Bahia, musical dirigido por Augusto Boal em São Paulo, com a participação de outros músicos baianos, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia.

Em 1968, convidado por Caetano Veloso, Tom Zé decide ir para São Paulo para fazer parte do movimento tropicalista. Em São Paulo, Tom Zé participou do álbum Tropicália ou Panis et Circensis. No mesmo ano, leva o primeiro lugar no IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, com a canção “São Paulo, Meu Amor”.

Ainda em 1968, Tom Zé lança seu primeiro álbum, Grande Liquidação. Nesse álbum, carregava fortes traços tropicalistas em suas canções. Nessa época, compôs diversas músicas junto com outros artistas, como a canção “2001”, em parceria com Rita Lee. Com o fim do movimento tropicalista, Tom Zé passou a fazer shows em ambientes menores, principalmente associados ao movimento estudantil.

Durante a década de 1970, lançou alguns álbuns como Todos os Olhos (1973) e Estudando o Samba (1976), que fizeram sucesso entre a crítica, tendo sido elogiado pela sua inventividade e criatividade, com o som experimental dos álbuns. Tom Zé passou a utilizar objetos não-convencionais para suas gravações, como uma enceradeira industrial.

Com o fracasso comercial de seus álbuns, Tom Zé decide, no final da década de 1980, se mudar de volta para a Bahia, onde trabalharia como gerente no posto de gasolina de um primo, enquanto sua esposa seria realocada, por ser funcionária pública. Antes de realizar a mudança, foi “descoberto” por David Byrne, ex-membro da banda Talking Heads, em uma visita ao Rio de Janeiro, que tinha a intenção de lançar Tom em seu selo Luaka Bop. Com o auxílio de Byrne, Tom Zé retomou sua carreira musical e fez uma turnê pela Europa.

Na década de 1990, Tom Zé passou a ser reconhecido mundialmente, por conta de suas turnês pelos Estados Unidos e Europa. Em 1998, seu álbum Com Defeito de Fabricação foi eleito como um dos dez melhores álbuns do ano pelo The New York Times. Compôs a trilha sonora do espetáculo de balé “Parabelo”, que estreou em 1997, pelo Grupo Corpo.

Em 2006, foi lançado o filme Fabricando Tom Zé, documentário dirigido por Décio Matos Jr., sobre a vida e obra do músico.

Em 2013, lançou o álbum Tribunal do Feicebuqui, com parcerias com Emicida, Tim Bernardes e Tatá Aeroplano. O álbum foi criado em resposta à repercussão de sua participação como locutor em um comercial para a Coca-Cola.

Em 2019, foi publicada a biografia “Tom Zé: o último tropicalista”, escrita pelo italiano Pietro Scaramuzzo. Em 2026, foi publicada a biografia “Stray Dog in the Milky Way”, escrita pelo americano Christopher Dunn, lançada no Brasil sob o nome “Vira lata na Via Láctea”, mesmo nome do álbum de Tom Zé lançado em 2014.

Em 2022, passou a ocupar uma cadeira na Academia Paulista de Letras.

Tom Zé é casado com a jornalista e produtora Neusa Martins desde 1970. O casal se conheceu no final dos anos 1960, quando Neusa foi escolhida para entrevistar Tom.

Tom Zé é torcedor fanático do Corinthians. Em 1990, fez uma música em homenagem ao jogador Neto, o Xodó da Fiel, em alusão à sua não convocação para a Seleção Brasileira que disputaria a Copa do Mundo de 1990.

Discografia

Álbuns de estúdio

Tom Zé (Grande Liquidação) (1968)

Tom Zé (1970)

Tom Zé (Se o Caso é Chorar) (1972)

Todos os Olhos (1973)

Estudando o Samba (1976)

Correio da Estação do Brás (1978)

Nave Maria (1984)

The Hips of Tradition (1992)

Parabelo (com José Miguel Wisnik) (1997)

No Jardim da Política (1998)

Com Defeito de Fabricação (1998)

Jogos de Armar (Faça Você Mesmo) (2000)

Santagustin (2002)

Imprensa Cantada (2003)

Jogos de Armar (2003)

Estudando o Pagode (2005)

Danç-Êh-Sá – Pós-Canção/Dança dos Herdeiros do Sacrifício / 7 Caymianas para o Fim da Canção (2006)

Estudando a Bossa (2008)

Tropicália Lixo Lógico (2012)

Tribunal do Feicebuqui (2013)

Vira Lata na Via Láctea (2014)

Canções Eróticas de Ninar (2016)

Sem Você Não A (2017)

Língua Brasileira (2022)

Ao Vivo

Cantando com a Plateia (com Gereba) (1990)

O Pirulito da Ciência (2010)

Coletâneas

The Best of Tom Zé (1990)

Tom Zé (1994)

20 preferidas (2002)

Explaining Things So I Can Confuse You (2010)

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